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Uma carta aberta a comunidade jurídica...

Publicado originalmente em 18 de agosto de 2020.

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Tudo começa com uma pequena mudança cultural.

O que deveria ser algo natural pode ser complexo dependendo do seu momento de vida.

Me parece que parte da nossa sociedade está cansada de ouvir palavras inovadoras, disruptivas, “novo modus operandi”, que estamos no “novo normal”, em como tudo irá mudar e como a pandemia agilizou esse processo de transformação.

A ideia de um salvador, de um messias que efetue esse processo, que nos guie, cure, mude, faça, inove, é algo esperado por grande parte da sociedade. Essa busca, tampouco é uma novidade. Ainda que ela cause inúmeros problemas como a história nos mostra.

Norberto Bobbio, por exemplo, já nos alertava sobre esses males nos anos 1960 e 70 ao analisar as questões de guerra e paz, pontuando que sempre procuramos um terceiro para mediar nossos pequenos conflitos e nos guiar, seja ele no cenário micro ou macro. O problema é que nem sempre encontramos essa pessoa, por vezes, ela nem mesmo existe.

Tal situação pode gerar um problema em uma sociedade que enfrenta desafios tão grandes como a transformação digital, a inclusão, a diversidade, a polarização e a miséria.

Dessa forma, como agir neste cenário?

Bom, a resposta pode parecer vinda de um livro de autoajuda, mas a verdade é que ”a mudança vem de cada um”. Nós precisamos ser a mudança que queremos. Nós devemos ser os protagonistas da nossa história. Inclusive, os protagonistas da nossa carreira!

Todos querem trabalhar em um local divertido, animado, feliz, com pessoas motivadas, inteligentes e interessantes. Mas, como nós estamos colaborando para esse processo? O que fazemos para criar este ambiente? Qual o nosso papel no desenvolvimento da empresa ou escritório? O que estamos fazendo com as nossas vidas profissionais?

Os problemas da área jurídica são inúmeros. O senso comum atribui inclusive uma “fama” e um “histórico” particular para área. Segundo tal crença estaríamos falando de profissionais arrogantes, autoritários, assediadores, avarentos, não inclusivos ou contra a diversidade, elitistas, misóginos, corruptos, distantes da realidade, inflexíveis, que não pensam no cliente, que não entendem a necessidade das pessoas, entre tantos outros adjetivos.

Ainda que essas percepções não sejam verdadeiras, é fato que alguns de nós que sofremos na mão de pessoas que se comportavam de maneira similar aos adjetivos acima relacionados e maculavam a imagem do que é o jurista.

Igualmente, tais expressões, contudo, parecem não condizer com o texto previsto no juramento prestado quando da conclusão da graduação e repetido no momento da aquisição da carteira da Ordem dos Advogados do Brasil:

“Prometo, no exercício das minhas funções e do meu ofício, respeitar os princípios sobre os quais se assentam as leis, guiar-me à luz da Ética, sempre em busca da Justiça, e dos Valores Humanos, valendo-me do Direito como instrumento máximo para assegurar aos homens os seus direitos fundamentais e intocáveis, sem distinção de qualquer natureza. E, acima de tudo, prometo defender a liberdade, pois sem ela não há direito que sobreviva, nem paz que se concretize.”

Diante deste cenário, voltam as questões, o que estamos fazendo com a nossa carreira? Qual é o nosso papel na transformação que queremos ver?

A resposta muitas vezes não é que não basta ser disruptivo, inovador, ter cursado as melhores faculdades, os cursos mais famosos, vir de uma família tradicional ou qualquer outra solução já pensada e praticada por tantos. A inovação e a transformação passam por assumirmos a nossa responsabilidade junto ao nosso crescimento e nosso papel como juristas.

Não adianta buscar um terceiro ausente que nos auxilie. Somente nós poderemos mudar a nossa carreira e a nossa história. A mudança que desejamos, a transformação de nossas carreiras depende do protagonismo que assumirmos.

O escritório, a empresa, o seu colega, o seu chefe, amigos, professores tantas pessoas podem lhe dar mil dicas, auxílios, mas a responsabilidade pela mudança parte de cada um!

Aquela ideia de que um currículo melhor passaria em tal local, garantiria aquela promoção, uma oportunidade melhor, aquela vaga dos sonhos, esse tipo de questão ainda é importante, mas não é a única necessária.

Cada vez mais o mercado exige competências como: caráter, empatia, força de vontade, paixão, capacidade de trabalhar em equipe e resiliência.

A escada do crescimento profissional também requer o olhar para o lado e auxiliar um colega, dividir as tarefas, trabalhar em equipe, reconhecer os erros, tolerar as diferenças, ser humilde e aceitar desafios.

Agosto de 2020, 193 anos desde a criação dos primeiros cursos jurídicos no país, acredito que vale a reflexão sobre o nosso papel como jurista. Repensarmos o que estamos fazendo com a nossa área, para além de transformação digital e inclusão de tecnologia. Precisamos pensar no nosso papel no Direito, no que fazemos, no que queremos e em como demonstramos isso.

Chegou a hora de assumirmos os rumos das nossas ações e da nossa carreira e, efetivamente, consolidar o nosso conhecimento como chave da mudança que queremos ver na sociedade.

 

Conteúdo originalmente publicado no site. Disponível em: https://www.linkedin.com/pulse/uma-carta-aberta-comunidade-jur%C3%ADdica-fernanda-galera-soler/

 

Créditos da imagem: Designed by Freepik, licença gratuita.

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